domingo

#3

Foram tempos muito difíceis aqueles da década de 50. Mamãe tinha parado de trabalhar e papai nos sustentava apenas com seu salário de operário, que na época mal pagava nossa comida. Não demorou p/ que tivéssemos de abandonar nossa casinha num bairro afastado da cidade e mudar pra outra ainda mais longe. Eu tinha acabado de completar 9 anos e foi a primeira vez que mamãe e papai tiveram uma conversa séria comigo e me disseram que eu entraria pra escola. Lembro-me claramente de como achei aquilo o máximo.
Em pouco tempo tinha feito muitos amigos no bairro. Perto de nossa casa tinha um lote desocupado e sempre as crianças da rua se reuniam pra jogar futebol. Desde a primeira vez que estive lá só pude reparar em uma menina, Helena. Ela não brincava conosco, sentava-se sempre num balcão próximo e nos assistia ou brincava sozinha com algumas bonecas velhas. Demorei três meses para me apresentar a Helena, mais dois meses para conversamos pela primeira vez e menos de um dia para sermos melhores amigos. Helena era uma menina de poucas palavras, mas todas ditas com doçura. Era a menina mais linda que eu já vira em toda a minha vida, mesmo que não tivesse visto muitas. Todos os dias eu acordava mais cedo que todo mundo em casa e preparava duas xícaras de café quente, saía de casa e passava na porta de Helena, para sentarmos juntos no degrau da rua e depois caminharmos pra escola conversando. Ela era apenas um ano mais nova que eu, mas estava duas séries à minha frente. Lembro-me de todos os momentos ao seu lado com muito carinho e ternura, Helena sempre fora uma amiga e tanto. Com o tempo, ela foi se enturmando melhor. Vez ou outra jogava queimada ou esconde-esconde, mas na maioria do tempo apenas observava.
Em casa as coisas não iam bem, nossas economias não davam para o sustento e papai vivia em constante tristeza, sempre cabisbaixo ouvindo as reclamações de minha mãe. Mas as coisas ficaram realmente ruins quando ele se foi pro céu. Mamãe não tinha emprego ainda e teve que pedir um empréstimo pra um primo distante pra comprar panos e linhas, conseguindo, assim, abrir uma lojinha agregada à nossa casa onde vendia roupas para fora. Eu também tive que começar a trabalhar, arrumei um turno depois da aula para ajudar na venda do Senhor Camilo. Helena passou a não mais assistir às brincadeiras, em vez disso esteve comigo quando eu não podia brincar, ajudando na venda também ou simplesmente me fazendo companhia. Ficamos cada vez mais próximos, Helena ia sempre à minha casa ouvir-me contar da saudade de meu pai ou de qualquer assunto cotidiano. Era comum Helena e eu estudarmos juntos, ela tinha as melhores notas, mesmo não sendo desprovida de grande inteligência. Com o passar do tempo, ficamos tão próximos que deixamos de ter uma amizade para termos realmente um romance. Helena passou a ser a prioridade em minha vida, me dedicava inteiramente a fazê-la feliz. E as roupas de minha mãe foram ganhando popularidade e ela passou a vender em atacado para fora. Helena e eu passávamos o tempo inteiro juntos, até que um dia o destino resolveu entrar na história.
Minha mãe recebeu uma proposta de emprego e resolveu entrar pra uma fábrica de roupas famosa. Ela levou-me consigo, mudamos pra um bairro nobre e Helena ficou para trás. Tentei evitar a dor maior da despedida, deixei apenas uma carta e um colarzinho de ouro pra minha amada e parti com minha mãe. As coisas correram muito bem pra nós, apesar da saudade diária que eu sentia. Mesmo assim, Helena permanecia junto a mim, em meu coração e pensamentos. Mamãe foi ganhando cada vez mais dinheiro, eu fui estudar em um bom colégio, mudamos pra uma linda casa na beira da praia, me formei e virei um empresário bem sucedido. E Helena ficou. I mean, mesmo com o passar de muitos anos, Helena ficou em meu coração.
Anos passaram até que na década de 90 resolvi voltar pro meu bairro pobre da Alemanha. Não pude reconhecer onde era minha rua, nem mesmo minha casa. Tudo estava diferente, não havia mais o lote que brincávamos nem nada mais que marcou minha infância. Procurei por Helena em todos os lugares possíveis, pelos endereços, mas não a encontrei. E Helena foi pra sempre meu sonho de infância. Sempre a imaginava usando o colar de outro, pingente de coração e um sorriso nos olhos. Quem sabe tivesse se casado, quem sabe tivesse muitos filhos e quem sabe um dia eu esquecesse tudo que Helena significava... Seu jeito, sua calma, seu amor, nosso amor! E Helena ficou.

Bebela Porto

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