Uma brincadeira de criança, nós dois gostávamos de nos corresponder. Agora, 40 anos depois, essas eram as únicas lembranças que me restavam dele; as quais eu calorosa e inutilmente cismava em me apegar. Tudo começou quando minha mãe me passou a coleção de papéis de carta dela, um mais lindo do que o outro: corações, flores, cachorrinhos, gatinhos. Quando vi aquilo tudo, não resisti, peguei uma das folhas e fiz minha primeira cartinha ao meu vizinho Amir. Escrevi coisas bobas, falei que ele era o melhor vizinho que alguém podia ter e que gostava de brincar com ele. Entretanto, no final, lhe fiz uma pergunta que tinha lido em algum lugar e achei bonito (bom, queria uma bela carta, mesmo que sem grande significado): "O que desejas?".
Coloquei no envelope, enderecei a ele e pedi para minha mãe colocar no correio (deixar a cartinha na caixa de correios dele nem passou pela minha cabeça... Nove anos não é uma idade muito prática). Mamãe deixou; bons tempos, boa mãe, boa mulher, enfim. Alguns dias depois, chegou um envelope simples, endereçado a mim. Abri e lá estava ela, a primeira. Com uma letra infantil e torta de 10 anos, Amir havia respondido minha carta. Ele não foi muito mais profundo do que eu fora, mas, lá no final, ele respondeu a minha pergunta: "Desejo viajar pelo mundo inteiro. O que desejas?". E essa pergunta virou nossa marca registrada. A cada nova cartinha, sempre o mesmo final. "O que desejas?", acompanhado sempre de uma nova resposta.
Sete anos se passaram e Amir não mais era meu vizinho. Mudou-se pouco após iniciarmos a nos corresponder, na verdade. Ele foi para outro estado com sua família, seu pai havia sido transferido pelo trabalho. Mas as cartas continuavam, com um tom mais apaixonado, mais maduro. Verdadeiras declarações de amor entre dois jovens que não se viam há anos. Foi quando, em uma das cartas, ele falou que iria, após a formatura no colégio, me visitar. Enlouqueci de felicidade, ou praticamente isso. Fiz Mamãe me comprar vestidos novos, sapatos novos, laços novos, maquiagens novas, chapéus novos. Tudo lindo, lindo. Bons tempos, boa mãe, boa mulher.
Tlin-don! A campainha tocou, abri a porta... Era Amir. O coração bateu forte, quis desmaiar, mas aguentei, fiquei lá, firme e forte. Por dois meses ele ficou, por dois meses fui feliz como nunca. Achei que viveria para sempre nesse conto de fadas, nos dávamos tão bem... Quando Amir confessou-me que iria fazer faculdade nos Estados Unidos, moraria lá por alguns anos. No dia seguinte, ele veio à minha casa, me entregou uma carta pessoalmente, me deu um rápido e triste beijo e se foi. Se foi para nunca mais voltar. Peguei a carta que ele me escrevera, li, reli e chorei. Nunca vi nenhuma como aquela, tão linda e tão triste... Ao final: "O que desejas?". Desejo você aqui, pensei. Bom, tarde demais, chorei mais.
Dos Estados Unidos, recebi um postal de cada cidade que Amir visitara em sua estadia. Ao fim de seus estudos, ele montou uma empresa pequena com um amigo que fizera, desejou voltar, mas disse que o mercado estava bom nos EUA, o Brasil não ajudaria em sua carreira. Nessa hora pensei em ir, ir atrás dele. Mas minha boa mãe não podia abandonar, essa época já estava adoentada, e... Ele e eu não tinhamos nada afinal, nosso romance de fato durara apenas os dois meses entre a formatura e a faculdade. Continuei minha vidinha.
A empresa cresceu. Cresceu, se espalhou pelo mundo, rendeu muito dinheiro a Amir. Ele pode realizar o primeiro de seus desejos, viajar pelo mundo. Aliando trabalho e diversão, visitou muitos países, conheceu muitas pessoas... E se casou. Nunca consegui isso tudo. Doei minha mente, meu coração e minha vida a Amir. Recebi e guardei, cada um de seus cartões postais, cada uma de suas cartas. Anos e anos se passaram... E eu vi. Vi no jornal a maior tragédia da minha existência: "Empresário Amir Carvalho assassinado em assalto". Morri. Ou pelo menos foi o que me pareceu. Passei semanas em choque, até ressuscitar. Resolvi enfrentar meu medo, saber o que aconteceu... Fui ler a matéria inteira sobre a morte de meu sempre vizinho. Detalhando, os médicos, da ambulância que o levou, acharam em um de seus bolsos um cartão postal... E ficaram impressionados com a simples frase que nele estava escrito, tão pequena, mas com tanto significado.
O que desejas?

Lê Leão!
*-* aaaah, que lindo, que triste... :')
ResponderExcluirLelezildes é escritoira :D
Mais uma vez, parabéns a vocês duas pelo blog!
Muuuito bom mesmo!!
Beijãoo
p.s.: desejo... muitas coisas. mas, sinceramente, não sei o que me apareceria no espelho de Ojesed.
ResponderExcluir:O Nossa Lê, ficou MARAVILHOSO seu texto. Comecei a ler assim e parecia que eu tinha entrado dentro da sua história, torcendo para que no fim ficassem juntos. Mas confesso que esse final surpreendente foi infinitamente melhor!
ResponderExcluirOh oh que fofa você Lê, adoreei o texto *o*
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