segunda-feira
#7
Tava já no terceiro dia de conjutivite quando resolvi me render e ir à farmácia cuidar logo disso. Vesti uma camiseta velha dessas de merchandising e fui, óculos na cara pra evitar as encaradas curiosas. Entrei parando na balança e me arrependendo antes mesmo de os números pararem, ficar em casa de pernas pro ar tem de fato um lado muito ruim. Esperei o atendente chegar enquanto dava uma olhada nos cremes e me decidia por todos, pobre cabelo seco, com pontas duplas, precisando de uma 'hidratação fortificada', de redução de volumes, de progressiva de chocolate, de extra reconst...
_Oi, posso ajudar? - perguntou-me, do outro lado do balcão um par de olhos verdes como menta recém colhida e um sorriso de uns 22 anos. Paralisada, não respondi nada, até perceber que o par de olhos e o sorriso se combinavam numa cara de 'Oi, ainda tá ai?'. Falei dos remédios e ele me olhou com uma carinha piedosa e maravilhosa quando soube meu problema, mas ainda assim, continuou a sorrir e tive uma forte impressão de que estava cada vez mais perto de mim, mesmo estando eu com um vírus idiota. Pedi tudo que precisava e ele me acompanhou até o caixa e me entregou um cartãozinho. Atrás, oito números. :O É, bendito poder de sedução do wayfarer vermelho-morango. Agradeci [sem nenhuma piscadinha viral] e sentei num banco perto da minha farmácia-maravilha. Enquanto contemplava o telefone, vejo meu cara na porta, procurando por algo. Acenei e ele veio a meu encontro, coração na boca, passou um flash inteiro em minha cabeça enquanto ele se aproximava. Afastei-me no banco dando espaço pra que ele se sentasse e abri um sorriso maior que o mundo. Ele me olhou em dúvida e de pé me entregou uma sacola enquanto falava:
_ Você esqueceu na loja.
Virou e atrás de sua blusa pude ler DROGARIA SAÚDE: 5700-1293, coincidentemente os mesmos números do cartão.
BEBELS :*
sábado
#6
Tudo começou há 249 anos atrás, quando Leticie ainda nem sonhava em nascer... Louis era um servo de Lady Isabelle Portois no feudo natal dos dois, Itabirie... Era dia de festa em Itabirie. O rei e a rainha Portois estavam organizando um baile em homenagem ao noivado de Isabelle com um gorducho feio e egoísta que ela nunca tinha visto na vida. Todo o povoado estava reunido lá, a Cinderela, o Princípe, a Branca de Neve, a Madrasta... Até os sete anões foram filar a comida, digo, prestigiar a alegria dos noivos.
Isabelle estava ansiosa para ver a cara de seu Gambázinho (apelido carinhoso pelo qual seu noivo era chamado pelo povo), sentada em seu troninho luxuoso. Todos os servos dos Portois estavam trabalhando para a perfeição da festa. Um desses servos, sem camisa, com um tipo de laço no pescoço e uma bandeja (ANTECESSOR DE GARÇOM DE FESTAS DE 15 ANOS), ofereceu à princesa uma das maravilhas comestíveis que o doido mágico Merlin afirmava ter trazido do futuro, algo que ele chamava de brigadeiro. Isabelle, distraída, não viu o que lhe era oferecido, apenas pegou e jogou na boca. Quando a princesa sentiu aquela maravilha trufada derretendo em sua boca, olhou para o garçom, opa, servo e sorriu, tamanha a felicidade com aquela delícia marrom. Mal sabia ela que, exatamente naquele momento, o garçom-servo, Louis, estava se apaixonando pelo sorriso sujo de chocolate da princesa Isabelle. Entretanto, mal sabia o servo Louis (podemos reparar que os dois eram grandes tapados), que nesse exato momento, a princesa Isabelle também se apaixonou pela barriguinha de chopp à sua frente.
Algumas horas se passaram e Gambázinho chegou ao seu noivado. Isabelle o repugnou tanto, mas tanto, mas tanto MESMO, que de tanto nojo, surgiu uma verruga em seu nariz. É claro, Louis não se importou com a verruga, e eles passaram a festa inteira trocando olhares. Ao final da festa, os pais resolveram marcar a data do casamento de Belle e Gambs. Isabelle desesperou, não queria se casar com aquele ser nojento... Foi quando Louis propôs:
_ Isabelle, razão do meu viver. Nosso amor é proibido, você é nobre, eu sou plebeu. Nossas famílias não nos deixaram nos casar... (Romeu e Julieta, oi?) Vamos, fuja comigo!
_ Mas Louis... - o servo fez sua cara de cachorrinho na chuva - VAMOS FUGIR DESTE LUGAR, BABY.
Os dois montaram em seu cavalo Kikitouis e fugiram em direção ao feudo Brasilie. Foi uma linda história de amor... enquanto durou. Em Brasilie, os dois eram tratados como plebeus. Isabelle virou lavadeira, Louis começou a beber muito. A violência familiar proporcionada pelo alcoolismo do ex-servo estavam deixando Isabelle muito triste. Louis começou a se envolver com as artes das trevas. O amor estava se acabando. Um dia, Isabelle estava colhendo morangos no jardim, quando viu Louis passando pela rua com outra. Foi um escândalo, eles terminaram tudo. Louis ficou tão nervoso por ter sido descoberto, que utilizou uma poção mágica com essência de menta para enfeitiçar Isabelle, para a prender para sempre em Brasilie. Louis fugiu com a outra, uma prostituta inglesa chamada Ana Bolena, para a terra natal da moça.
Muitos anos depois, Isabelle, que estava enriquecendo com seu negócio de lavar roupas (Merlin, o único de sua corte em Itabirie que sabia onde ela estava, havia mandado uma tal "máquina de lavar roupas" para ajudá-la), conheceu o pai de Leticie. Ele estava em Brasilie à negócios, em uma noitada, depois de muita cerveja, eles se casaram na Igreja Las Vegas. Apesar da rapidez, eles se amavam muito... e a lembrança de Louis foi apagada (e Louis foi decapitado junto com Ana Bolena na corte de Henrique VIII). Infelizmente, o castelo do pai de Leticie era em Belle Horizontouis... e Isabelle não podia sair de Brasilie. Ele ia a visitar aos finais de semana, depois de matar alguns dragões.
Apesar das dificuldades, Isabelle amava seu marido e sua enteada, e todos viveram felizes para sempre.
FIM.
Lelê
sexta-feira
#5
10...
Quem sabe quisesse pegar todo seu dinheiro e embarcar num avião, esperar que um terremoto nos atingisse assistindo tudo de camarote sobre as pirâmides egípcias! Bem atraente, uuh?!
9... Ou talvez nem precisasse ir tão longe, quem sabe apenas corresse pra casa do vizinho, do amigo, namorado, tio, avô, papagaio e passasse seus últimos segundos junto a alguém que você goste muito
8... Comeria o máximo que pudesse, todo o chocolate que encontrasse, junto de muuitos morangos e um pouco de menta pra ficar perfeito! Iria ingerir todas as calorias possíveis de uma só vez, faria uma competição de sorvete, guerra de brigadeiro, comeria sozinho um bolo inteiro Floresta Negra!
Seeeeeeeete... Iria a uma festa bem louca, ficaria bêbado e usaria cada precioso segundo pra extravasar algo que nunca pudera
6... Correria pra escola, jogaria as cadeiras pela janela, queimaria os livros, xingaria o professor rabugento, pixaria a sala e quebraria os vidros das portas e janelas...
5... Iria pra Europa beijar todos os caras lindos e loiros, depois partiria pra Los Angeles e ficaria com todos os astros Hollywoodianos
4... Quem sabe quisesse pegar um barco e navegar o máximo que pudesse, acabando no meio do oceano sem ter mesmo que voltar
3... Certamente mais da metade das pessoas usariam seus últimos segundos pra falar o que nunca tiveram coragem de falar, isso é um fato.
Dooooois... Realizaria um sonho, veria um show do Red Hot abraçada ao Veronez
Um... Abraçaria bem forte seu amor maior, fecharia os olhos e esperaria...
[image]...E o mundo continuaria o mesmo

Bells
terça-feira
#4
Pra você, quanto vale uma vida?
domingo
#3
Em pouco tempo tinha feito muitos amigos no bairro. Perto de nossa casa tinha um lote desocupado e sempre as crianças da rua se reuniam pra jogar futebol. Desde a primeira vez que estive lá só pude reparar em uma menina, Helena. Ela não brincava conosco, sentava-se sempre num balcão próximo e nos assistia ou brincava sozinha com algumas bonecas velhas. Demorei três meses para me apresentar a Helena, mais dois meses para conversamos pela primeira vez e menos de um dia para sermos melhores amigos. Helena era uma menina de poucas palavras, mas todas ditas com doçura. Era a menina mais linda que eu já vira em toda a minha vida, mesmo que não tivesse visto muitas. Todos os dias eu acordava mais cedo que todo mundo em casa e preparava duas xícaras de café quente, saía de casa e passava na porta de Helena, para sentarmos juntos no degrau da rua e depois caminharmos pra escola conversando. Ela era apenas um ano mais nova que eu, mas estava duas séries à minha frente. Lembro-me de todos os momentos ao seu lado com muito carinho e ternura, Helena sempre fora uma amiga e tanto. Com o tempo, ela foi se enturmando melhor. Vez ou outra jogava queimada ou esconde-esconde, mas na maioria do tempo apenas observava.
Em casa as coisas não iam bem, nossas economias não davam para o sustento e papai vivia em constante tristeza, sempre cabisbaixo ouvindo as reclamações de minha mãe. Mas as coisas ficaram realmente ruins quando ele se foi pro céu. Mamãe não tinha emprego ainda e teve que pedir um empréstimo pra um primo distante pra comprar panos e linhas, conseguindo, assim, abrir uma lojinha agregada à nossa casa onde vendia roupas para fora. Eu também tive que começar a trabalhar, arrumei um turno depois da aula para ajudar na venda do Senhor Camilo. Helena passou a não mais assistir às brincadeiras, em vez disso esteve comigo quando eu não podia brincar, ajudando na venda também ou simplesmente me fazendo companhia. Ficamos cada vez mais próximos, Helena ia sempre à minha casa ouvir-me contar da saudade de meu pai ou de qualquer assunto cotidiano. Era comum Helena e eu estudarmos juntos, ela tinha as melhores notas, mesmo não sendo desprovida de grande inteligência. Com o passar do tempo, ficamos tão próximos que deixamos de ter uma amizade para termos realmente um romance. Helena passou a ser a prioridade em minha vida, me dedicava inteiramente a fazê-la feliz. E as roupas de minha mãe foram ganhando popularidade e ela passou a vender em atacado para fora. Helena e eu passávamos o tempo inteiro juntos, até que um dia o destino resolveu entrar na história.
Minha mãe recebeu uma proposta de emprego e resolveu entrar pra uma fábrica de roupas famosa. Ela levou-me consigo, mudamos pra um bairro nobre e Helena ficou para trás. Tentei evitar a dor maior da despedida, deixei apenas uma carta e um colarzinho de ouro pra minha amada e parti com minha mãe. As coisas correram muito bem pra nós, apesar da saudade diária que eu sentia. Mesmo assim, Helena permanecia junto a mim, em meu coração e pensamentos. Mamãe foi ganhando cada vez mais dinheiro, eu fui estudar em um bom colégio, mudamos pra uma linda casa na beira da praia, me formei e virei um empresário bem sucedido. E Helena ficou. I mean, mesmo com o passar de muitos anos, Helena ficou em meu coração.
Anos passaram até que na década de 90 resolvi voltar pro meu bairro pobre da Alemanha. Não pude reconhecer onde era minha rua, nem mesmo minha casa. Tudo estava diferente, não havia mais o lote que brincávamos nem nada mais que marcou minha infância. Procurei por Helena em todos os lugares possíveis, pelos endereços, mas não a encontrei. E Helena foi pra sempre meu sonho de infância. Sempre a imaginava usando o colar de outro, pingente de coração e um sorriso nos olhos. Quem sabe tivesse se casado, quem sabe tivesse muitos filhos e quem sabe um dia eu esquecesse tudo que Helena significava... Seu jeito, sua calma, seu amor, nosso amor! E Helena ficou.
Bebela Porto
sexta-feira
#2
Uma brincadeira de criança, nós dois gostávamos de nos corresponder. Agora, 40 anos depois, essas eram as únicas lembranças que me restavam dele; as quais eu calorosa e inutilmente cismava em me apegar. Tudo começou quando minha mãe me passou a coleção de papéis de carta dela, um mais lindo do que o outro: corações, flores, cachorrinhos, gatinhos. Quando vi aquilo tudo, não resisti, peguei uma das folhas e fiz minha primeira cartinha ao meu vizinho Amir. Escrevi coisas bobas, falei que ele era o melhor vizinho que alguém podia ter e que gostava de brincar com ele. Entretanto, no final, lhe fiz uma pergunta que tinha lido em algum lugar e achei bonito (bom, queria uma bela carta, mesmo que sem grande significado): "O que desejas?".
Coloquei no envelope, enderecei a ele e pedi para minha mãe colocar no correio (deixar a cartinha na caixa de correios dele nem passou pela minha cabeça... Nove anos não é uma idade muito prática). Mamãe deixou; bons tempos, boa mãe, boa mulher, enfim. Alguns dias depois, chegou um envelope simples, endereçado a mim. Abri e lá estava ela, a primeira. Com uma letra infantil e torta de 10 anos, Amir havia respondido minha carta. Ele não foi muito mais profundo do que eu fora, mas, lá no final, ele respondeu a minha pergunta: "Desejo viajar pelo mundo inteiro. O que desejas?". E essa pergunta virou nossa marca registrada. A cada nova cartinha, sempre o mesmo final. "O que desejas?", acompanhado sempre de uma nova resposta.
Sete anos se passaram e Amir não mais era meu vizinho. Mudou-se pouco após iniciarmos a nos corresponder, na verdade. Ele foi para outro estado com sua família, seu pai havia sido transferido pelo trabalho. Mas as cartas continuavam, com um tom mais apaixonado, mais maduro. Verdadeiras declarações de amor entre dois jovens que não se viam há anos. Foi quando, em uma das cartas, ele falou que iria, após a formatura no colégio, me visitar. Enlouqueci de felicidade, ou praticamente isso. Fiz Mamãe me comprar vestidos novos, sapatos novos, laços novos, maquiagens novas, chapéus novos. Tudo lindo, lindo. Bons tempos, boa mãe, boa mulher.
Tlin-don! A campainha tocou, abri a porta... Era Amir. O coração bateu forte, quis desmaiar, mas aguentei, fiquei lá, firme e forte. Por dois meses ele ficou, por dois meses fui feliz como nunca. Achei que viveria para sempre nesse conto de fadas, nos dávamos tão bem... Quando Amir confessou-me que iria fazer faculdade nos Estados Unidos, moraria lá por alguns anos. No dia seguinte, ele veio à minha casa, me entregou uma carta pessoalmente, me deu um rápido e triste beijo e se foi. Se foi para nunca mais voltar. Peguei a carta que ele me escrevera, li, reli e chorei. Nunca vi nenhuma como aquela, tão linda e tão triste... Ao final: "O que desejas?". Desejo você aqui, pensei. Bom, tarde demais, chorei mais.
Dos Estados Unidos, recebi um postal de cada cidade que Amir visitara em sua estadia. Ao fim de seus estudos, ele montou uma empresa pequena com um amigo que fizera, desejou voltar, mas disse que o mercado estava bom nos EUA, o Brasil não ajudaria em sua carreira. Nessa hora pensei em ir, ir atrás dele. Mas minha boa mãe não podia abandonar, essa época já estava adoentada, e... Ele e eu não tinhamos nada afinal, nosso romance de fato durara apenas os dois meses entre a formatura e a faculdade. Continuei minha vidinha.
A empresa cresceu. Cresceu, se espalhou pelo mundo, rendeu muito dinheiro a Amir. Ele pode realizar o primeiro de seus desejos, viajar pelo mundo. Aliando trabalho e diversão, visitou muitos países, conheceu muitas pessoas... E se casou. Nunca consegui isso tudo. Doei minha mente, meu coração e minha vida a Amir. Recebi e guardei, cada um de seus cartões postais, cada uma de suas cartas. Anos e anos se passaram... E eu vi. Vi no jornal a maior tragédia da minha existência: "Empresário Amir Carvalho assassinado em assalto". Morri. Ou pelo menos foi o que me pareceu. Passei semanas em choque, até ressuscitar. Resolvi enfrentar meu medo, saber o que aconteceu... Fui ler a matéria inteira sobre a morte de meu sempre vizinho. Detalhando, os médicos, da ambulância que o levou, acharam em um de seus bolsos um cartão postal... E ficaram impressionados com a simples frase que nele estava escrito, tão pequena, mas com tanto significado.
O que desejas?

Lê Leão!
quarta-feira
#1
Naveguei anos a fio à procura da fórmula da felicidade. Um sábio amigo me disse uma vez que esse seria o maior tesouro da humanidade, logo, deduzi que estaria guardado nas profundezas do oceano, quem sabe escoltado por piratas ávidos de aventura. Iniciei minha viagem de busca tendo meu ideal claro na mente, enfrentaria qualquer coisa por essa fórmula.
Seguindo algumas pistas, encontrei uma senhora idosa que trabalhava na cozinha da embarcação onde eu estava. Ela me disse que já ouvira falar da fórmula e que essa era simples como a junção dos três ingredientes vitais: chocolate, morango e a menta pra complementar. Perfeito, sem tirar nem pôr. Concordei que era mesmo uma pista válida, mas não estava satisfeito. Queria ir a fundo com isso, desvendar toda a complexidade da vida.
Agradeci e andei mais um pouco, até encontrar uma jovem apoiada no parapeito do navio. Seu olhar vagava pelo mar, à procura de alguma coisa. Aproximei e perguntei pela fórmula. Os olhos da jovem se encheram de luz e ela sorriu dizendo que há anos espera encontrar a felicidade em alguém. Alguém que a complete, como a metade da laranja que a faria feliz. Sorri de volta e não disse nenhuma palavra. Me impressionei com a hipocrisia daquela jovem, pensar que a sua felicidade depende de uma outra pessoa. Lembrei da minha mulher, que eu deixara em casa e senti um aperto no peito. Porém, existem taaantas pessoas existem felizes sem ter esse conceito equivocado que é mais que óbvio que cada um é feliz por si só...
Continuei minha viagem com tranqüilidade,até o dia 28 de março de 1985. Eu estava sentado frente à cabine do piloto, era noite, estava frio e escuro, uma chuva branda caía. De repente, ouvi gritos vindo de lá de dentro. Era o piloto, sua voz demonstrava nítido desespero. Olhei pra fora e vi uma montanha rochosa ao longe, mas não tão longe assim. Íamos bater, de fato!
Logo, logo pessoas começaram a correr em desespero, de um lado para o outro, gritos agudos de socorro e redenção. Eu rezava alto e também corria, quando deparei com um senhor no canto do navio. Ele estava sentado, olhar sereno, semblante calmo, não pude acreditar no que via. Me aproximei e ele levantou o olhar:
_ Como o senhor pode ser capaz de ficar aí sentado enquanto a morte vem ao nosso encontro?
_ Você já foi feliz hoje? – disse ele, em resposta. Fiquei mudo, sem reação. Ao nosso lado, uma mulher pulava ao mar, na tentativa de sobreviver. Abaixei o olhar e ele pareceu entender o que acontecia. Enfiou as mãos no bolso e tirou um baúzinho pequeno. Peguei e vi que dentro tinha um bilhete, escrito por alguém de caligrafia impecável. Dizia:
O grande problema dos homens é acreditar que as coisas não fazem sentido, quando na realidade elas fazem. No momento de desespero, a sensatez é poder ter evolução suficiente e saber lidar com a calma. De nada vale esquentar a cabeça quando apenas o destino pode resolver as coisas. O fato é que não há alguém que viva isolado e feliz, as pessoas podem ser amadas, devem ser amadas. E que arrependimento teria um homem, se em algum momento da vida deixasse pra trás sua mulher e filhos em busca de uma coisa que sequer sabe ao certo sobre a existência. Hipócrita é quem pensa que saudade não dói, que saudade não é amor. E que amor não é essencial. A fórmula da felicidade nada mais é que saber viver. Perceber que o sentido implica simplesmente viver cada dia da melhor maneira possível, sorrir com as coisas simples, viver cada coisa de uma vez. E o sentido de tudo é isso, a fórmula da felicidade é a pura simplicidade, você já foi feliz hoje?
Meu coração disparou a 200km por hora, procurei o senhor mas não o vi, de repente ouvi um barulho estrondoso, era meu encontro com a dura montanha da morte! E tudo se dissolveu num piscar de olhos!
Bebela Porto!

